A história de diferentes municípios goianos mostra como a mineração pode transformar economias locais, estimular a formação de novas atividades produtivas e contribuir para o desenvolvimento regional. Também revela desafios relacionados à dependência econômica, à infraestrutura e à continuidade das atividades após o encerramento ou a paralisação de operações minerais.
Essas diferentes trajetórias foram apresentadas pelo geólogo Luiz Antônio Vessani, presidente do Conselho do Sindicato das Indústrias de Mineração GO e DF (Minde), durante o Goiás Mineral 2026, realizado em 23 de setembro, na Casa da Indústria, em Goiânia.
Na palestra “Territórios que Transformam — Casos de Desenvolvimento Regional em Municípios Mineradores de Goiás”, Vessani reuniu dados históricos, econômicos e populacionais para examinar como a mineração se relaciona com a formação e a evolução dos municípios.
A apresentação percorreu experiências ligadas à produção de cobre, ouro, níquel, bauxita, fosfato, nióbio e terras raras, abordando desde a descoberta das jazidas e a implantação dos empreendimentos até seus reflexos sobre a arrecadação, a população e a estrutura econômica dos territórios.
Mais do que observar a evolução de cada município isoladamente, Vessani trouxe uma perspectiva regional: compreender como diferentes atividades econômicas podem se complementar e como a infraestrutura, os serviços e a articulação entre municípios podem contribuir para a construção de oportunidades de longo prazo.
Alto Horizonte: crescimento econômico e dependência mineral
A trajetória de Alto Horizonte ilustra a transformação que um empreendimento mineral de grande porte pode produzir em um município de pequena população.
A descoberta da jazida de Chapada ocorreu em 1973, mas a operação da Mineração Maracá teve início apenas em 2007, após décadas de pesquisa e desenvolvimento do projeto.
A apresentação mostrou a evolução populacional, do PIB per capita e da arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), evidenciando a mudança de escala econômica do município.
Ao mesmo tempo, Vessani chamou atenção para a concentração das receitas locais. Segundo os dados apresentados, 56% da arrecadação municipal decorre da atividade mineral, indicando forte dependência econômica.
O caso evidencia tanto a capacidade da mineração de movimentar uma economia local quanto a importância de aproveitar o período de operação para fortalecer outras atividades produtivas.
Barro Alto e Goianésia: a mineração em uma dinâmica regional
No caso de Barro Alto, a análise foi além dos limites do município minerador para considerar sua relação com Goianésia. A história mineral de Barro Alto está associada principalmente ao níquel e à bauxita.
As jazidas de níquel foram descobertas na década de 1970, enquanto a primeira produção da operação da Anglo American ocorreu em 2011. A produção de bauxita começou em 2013.
Vessani apresentou a evolução da CFEM, da população e da arrecadação dos dois municípios, destacando a importância de observar as relações econômicas estabelecidas entre localidades próximas.
A comparação ajuda a compreender por que o desenvolvimento regional não deve ser analisado apenas a partir do município onde está instalada a mina. A atividade mineral se relaciona com uma rede mais ampla de infraestrutura, serviços e outras atividades econômicas.
Na proposta de polos apresentada ao final da palestra, a região de Goianésia–Barro Alto aparece como um espaço de integração entre agronegócio e mineração.
Catalão: mineração, indústria e formação de uma estrutura produtiva diversificada
Catalão representa uma trajetória em que a mineração se desenvolveu em um município com outras atividades econômicas relevantes. A apresentação destacou a exploração de fosfato e nióbio, a implantação do Distrito Mineroindustrial de Catalão (DIMIC), a produção de fertilizantes e a formação de instituições de ensino e qualificação profissional.
Entre os marcos apresentados estão a criação do DIMIC, em 1980, a implantação de unidades industriais ligadas à cadeia de fertilizantes e o início do curso de Engenharia de Minas, em 2008.
Vessani também mostrou dados sobre estabelecimentos industriais, crescimento populacional e expansão da rede de ensino e dos serviços de saúde. O caso permite observar a mineração em uma estrutura econômica mais ampla, na qual produção mineral, indústria, infraestrutura e formação de profissionais se relacionam.
Na proposta de desenvolvimento regional, Catalão–Ouvidor aparece como um dos polos com potencial ligado a fosfato, nióbio, terras raras e titânio.
Crixás e Mara Rosa: diferentes momentos da mineração de ouro
A palestra também apresentou duas trajetórias ligadas à mineração aurífera. Em Crixás, a atividade tem raízes no período colonial, mas ganhou uma nova configuração com a pesquisa geológica realizada a partir da década de 1970 e o início da operação industrial em 1989.
Os gráficos apresentados mostram a evolução da arrecadação da CFEM e do PIB per capita, permitindo acompanhar diferentes fases da atividade mineral no município.
Mara Rosa, por sua vez, representa um empreendimento de implantação mais recente. Após décadas de pesquisa e desenvolvimento dos depósitos minerais, a operação da Hochschild Mining teve início em 2024.
A comparação evidencia uma característica da mineração: o intervalo entre a descoberta de uma jazida e sua entrada em produção pode se estender por décadas, exigindo investimentos, pesquisa, planejamento e continuidade dos projetos.
Também mostra a importância de compreender os diferentes estágios de maturação dos empreendimentos ao avaliar suas contribuições para a economia regional.
Minaçu: da trajetória do amianto à nova oportunidade das terras raras
Minaçu foi um dos exemplos mais representativos da transformação dos ciclos minerais. A história do município está fortemente ligada à exploração de amianto, iniciada a partir das pesquisas e investimentos realizados ao longo do século XX. A atividade participou da formação da estrutura urbana e econômica local.
A apresentação mostrou a redução da arrecadação de CFEM durante o período identificado como crise do amianto e a posterior recuperação das receitas. Ao mesmo tempo, Minaçu passou a integrar uma nova etapa da mineração brasileira com o desenvolvimento do projeto de terras raras da Serra Verde.
A pesquisa mineral teve início em 2011, a operação começou em 2023 e a produção comercial em 2024. O caso reúne duas questões centrais para o desenvolvimento regional: a necessidade de preparar os municípios para as mudanças nos ciclos minerais e as oportunidades abertas por novas cadeias produtivas.
Na proposta apresentada por Vessani, Minaçu e Nova Roma integram um potencial polo regional relacionado às terras raras.
Niquelândia: infraestrutura e continuidade das operações
A história de Niquelândia demonstra a importância da infraestrutura para a viabilização de projetos minerais. Vessani recuperou a trajetória da produção de níquel, destacando os investimentos realizados a partir da década de 1970 e as necessidades de transporte e fornecimento de energia para a implantação das operações.
Um dos exemplos apresentados foi a decisão de instalar em São Paulo uma etapa do processamento industrial que estava prevista para Goiás, em razão da insuficiência do suprimento de energia necessário à época.
A palestra também abordou a suspensão da produção da Companhia Níquel Tocantins, em 2016, e a evolução posterior dos indicadores de arrecadação e população.
O caso evidencia como decisões de infraestrutura, condições de operação e continuidade dos empreendimentos se relacionam com as perspectivas econômicas dos municípios mineradores.
Pilar de Goiás e Nova Roma: mudanças nos ciclos minerais
Outros dois municípios apresentados ajudam a compreender diferentes situações da atividade mineral. Em Pilar de Goiás, cuja história está associada à exploração de ouro desde o século XVIII, Vessani mostrou uma trajetória marcada por ciclos de produção e declínio. A apresentação destacou a retomada da atividade em diferentes períodos e a paralisação das operações da Pilar Gold em 2024.
Os dados populacionais mostram uma redução expressiva no número de habitantes ao longo das últimas décadas, enquanto a arrecadação mineral apresentou oscilações relacionadas à atividade.
Nova Roma, por sua vez, reúne uma história de exploração de ouro e cassiterita e uma perspectiva mais recente ligada às terras raras. A apresentação registra a descoberta de uma jazida em 2023 e o protocolo de pedido de licença prévia pela empresa Aclara em 2025.
Os dois casos reforçam a importância de considerar as diferentes fases da mineração — pesquisa, implantação, operação e eventual paralisação — na construção de estratégias de desenvolvimento municipal.
Sete polos para pensar o desenvolvimento regional
Após apresentar as experiências municipais, Vessani ampliou a discussão para uma proposta de organização territorial baseada na complementaridade entre mineração, indústria, agronegócio, infraestrutura e serviços.
A apresentação identificou sete polos e eixos de desenvolvimento:
- Catalão–Ouvidor: fosfato, nióbio, terras raras e titânio.
- Vila Propício: corretivos minerais.
- Goianésia–Barro Alto: integração entre agronegócio e mineração.
- Minaçu–Nova Roma: terras raras.
- Mara Rosa–Alto Horizonte: mineração, logística, serviços, cerâmica e remineralizadores.
- Níquel do Oeste Goiano: níquel, magnésio, cobre e cobalto.
- Programa Vale do Araguaia: desenvolvimento do agronegócio associado à demanda por corretivos, fosfato, remineralizadores e fertilizantes organominerais.
A proposta destaca a possibilidade de pensar o desenvolvimento a partir das características produtivas de cada região, considerando a integração entre municípios e cadeias econômicas.
Em vez de tratar os empreendimentos minerais como atividades isoladas, essa abordagem permite observar como infraestrutura, fornecedores, serviços e outras indústrias podem contribuir para ampliar as oportunidades geradas pela mineração.
Planejamento e articulação para transformar potencial em desenvolvimento
Na parte final da palestra, Vessani discutiu mecanismos de coordenação econômica e o papel das instituições na construção de estratégias de desenvolvimento. A apresentação comparou diferentes modelos de articulação entre Estado e setor privado e abordou a importância da governança, da capacidade institucional e da participação empresarial na formulação de políticas voltadas à atividade mineral.
O tema se conecta diretamente às experiências municipais apresentadas: a existência de recursos minerais e a implantação de uma mina podem criar oportunidades econômicas relevantes, mas sua transformação em desenvolvimento regional depende também de infraestrutura, diversificação produtiva e decisões de longo prazo.
Ao reunir trajetórias tão diferentes, a palestra mostrou que não existe um único modelo de município minerador. Há localidades que cresceram rapidamente com grandes projetos, regiões que desenvolveram relações com outras atividades produtivas e municípios que enfrentam os desafios da redução ou paralisação da produção.
A discussão proposta por Vessani reforça a importância de compreender essas experiências para orientar o planejamento do futuro mineral de Goiás.
O painel integrou a programação do Goiás Mineral 2026, promovido pelo Minde com o propósito de reunir dados, conhecimento técnico e experiências concretas para discutir a relação entre mineração e desenvolvimento.
Confira Apresentacao Luzi Vessani_Goias_Mineral.
Goiás Mineral 2026 — Conhecer o presente. Construir o futuro.


