Estudo apresentado no Goiás Mineral investiga como a mineração transforma economia e condições de vida nos municípios

Estudo apresentado no Goiás Mineral investiga como a mineração transforma economia e condições de vida nos municípios

Pesquisa conduzida por Erik Figueiredo analisa 82 indicadores, combina evidências de municípios goianos com inferência causal e identifica avanços econômicos, efeitos sociais e pontos de atenção para políticas públicas
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Erik Figueiredo, diretor-executivo do Instituto Mauro Borges (IMB), apresenta os resultados do estudo sobre mineração estratégica e desenvolvimento municipal durante o Goiás Mineral 2026 (Foto: Naira Batista)

O que acontece com um município quando chega um grande projeto de mineração? O crescimento do PIB, a geração de empregos e o aumento da arrecadação são os efeitos mais conhecidos. Mas eles são suficientes para caracterizar desenvolvimento?
Foi a partir dessa questão que o estudo “Mineração Estratégica e Desenvolvimento Municipal”, apresentado durante o Goiás Mineral 2026, ampliou a análise para 82 indicadores distribuídos em dez dimensões, incluindo atividade econômica, emprego, remuneração, proteção social, saúde, educação, finanças públicas, infraestrutura, segurança e qualidade do ar.

Conduzido pelo economista e diretor-executivo do Instituto Mauro Borges (IMB), Erik Figueiredo, o trabalho parte de uma concepção segundo a qual crescimento econômico é um meio para o desenvolvimento, e não seu único indicador. A pergunta central passa a ser, portanto, em que medida a mineração estratégica transforma a economia e as condições de vida nos municípios onde se insere.

Os resultados mostram uma expansão econômica expressiva associada à atividade: aumento médio estimado de 32,86% no PIB municipal, crescimento de 29,95% na arrecadação de impostos e acréscimo médio estimado de 2.009,83 vínculos formais ativos. Mas o estudo vai além e encontra resultados em remuneração, proteção social, saúde e segurança, ao mesmo tempo em que identifica áreas que demandam atenção do poder público.

Por que estudar a mineração estratégica?

A escolha pela mineração estratégica não foi casual. Segundo Erik Figueiredo, tratar a mineração como uma atividade homogênea dificultaria a compreensão de seus efeitos, uma vez que o setor reúne operações com características, escalas de investimento e capacidade de geração de valor muito diferentes.

“O foco na mineração estratégica tem várias vantagens. Primeiro porque a mineração é muito heterogênea”, explica.

A escolha também está relacionada ao potencial desse segmento para inserir o Brasil em cadeias produtivas de maior relevância internacional. A própria apresentação parte da discussão sobre as oportunidades brasileiras diante das transformações da economia mundial e da transição energética.

“O foco em mineração estratégica foi para trazer a ideia daquela que tem a maior capacidade de agregar valor e de alavancar o Brasil para um cenário de destaque internacional”, afirma Figueiredo.

Não basta comparar o antes e o depois

Um dos principais diferenciais do estudo está na metodologia.

A pesquisa trabalha com duas camadas de evidência. Na primeira, realiza uma análise descritiva, comparando municípios que receberam grandes projetos minerais com localidades semelhantes a partir de suas trajetórias anteriores à mineração. Entre os casos goianos apresentados estão Alto Horizonte e Barro Alto.
Em Alto Horizonte, por exemplo, o investimento de instalação considerado pelo estudo foi de R$ 527 milhões, equivalente a aproximadamente 19,5 vezes o PIB municipal de 2006. Em Barro Alto, o investimento aproximado de R$ 3,3 bilhões representava 26,6 vezes o PIB municipal. Os números ajudam a dimensionar a mudança provocada pela chegada de projetos de grande porte a economias locais relativamente pequenas.

Mas observar o que aconteceu antes e depois não seria suficiente para concluir que determinada mudança foi causada pela mineração.
Por isso, a segunda camada utiliza inferência causal. Municípios que iniciaram a mineração estratégica são comparados, em cada período, àqueles que ainda não haviam iniciado a atividade. O objetivo é estimar o efeito médio associado à chegada da mineração e acompanhar sua evolução ao longo do tempo.

Figueiredo explica que a construção da amostra é fundamental. É necessário ter um período suficientemente longo antes e depois da chegada da atividade mineral para observar as trajetórias dos municípios.

“Primeiro você prepara bem a amostra. O segundo passo é utilizar o estimador correto”, explica.

Segundo o pesquisador, a metodologia começa pela identificação de municípios comparáveis, formando grupos com características semelhantes antes da mineração.

“O primeiro passo é um matching, que é encontrar municípios que se parecem. É criar um bom grupo de tratamento e de controle, onde os tratados são similares aos do controle. A diferença é a presença da intervenção, ou seja, da mineração.”

O método também considera que os projetos começaram a operar em momentos diferentes. Assim, a trajetória de cada município é observada em relação ao seu próprio passado e à evolução de localidades comparáveis.

Essa distinção é importante também para interpretar os números do estudo: as estimativas causais representam efeitos médios associados à mineração estratégica na amostra analisada; não correspondem, isoladamente, ao resultado de um único município goiano.

Cerca de 2 mil vínculos formais adicionais — e a maior parte fora da mineração

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Erik Figueiredo conduziu o estudo que analisou 82 indicadores para avaliar os efeitos da mineração estratégica sobre diferentes dimensões do desenvolvimento municipal (Foto: Naira Batista)

Um dos resultados que melhor demonstra os encadeamentos econômicos da atividade está no emprego. O estudo estima um acréscimo médio de 2.009,83 vínculos formais ativos associado à mineração estratégica. Desse total estimado, 406,59 correspondem à indústria extrativa.

Os efeitos alcançam outros setores: são 756,70 vínculos adicionais nos serviços, 389,54 na construção, 340 no comércio e 66,91 na agropecuária.
O resultado ajuda a demonstrar que a atividade econômica gerada por um projeto mineral não termina nos limites da operação. Trabalhadores consomem no município, empresas contratam fornecedores e cresce a demanda por comércio, serviços, construção, transporte e outras atividades.

Na remuneração, o estudo estima ainda aumento de R$ 123,97 na remuneração média real. A razão entre as remunerações situadas nos percentis 75 e 25 cai 3,53%, indicando redução da distância relativa entre essas duas faixas da distribuição salarial.

Desenvolvimento além do PIB

É na análise das demais dimensões, porém, que o estudo amplia a discussão sobre desenvolvimento.

“É como se dissesse: eu sei que a mineração cria mais emprego, eu sei que a mineração eleva o PIB. Eu quero avaliar os efeitos da mineração sobre variáveis que normalmente não são consideradas nesse estudo”, resume Figueiredo.

Na proteção social, a estimativa aponta redução de 9,08% no número de famílias no Bolsa Família. Na saúde, um dos resultados estatisticamente identificados é a redução de 16,95% na incidência de baixo peso ao nascer.

Outro conjunto de resultados que chamou a atenção do pesquisador está relacionado à violência contra a mulher. O estudo estima redução de 53,97 notificações contra mulheres por 100 mil habitantes, além de reduções nas notificações de violência por parceiro íntimo, violência física por parceiro íntimo e violência recorrente por parceiro íntimo.

Para Figueiredo, olhar para essas variáveis permite discutir desenvolvimento a partir de uma perspectiva mais ampla do que produção e renda.

Resultados também revelam pontos de atenção

O estudo não encontra melhoria em todas as dimensões analisadas — e essa é uma parte relevante de suas conclusões.

Entre os pontos de atenção estão redução da diversificação econômica e ampliação da diferença salarial entre homens e mulheres. A pesquisa também não encontra evidências de melhoria da infraestrutura de saúde e educacional ou de ampliação do acesso à rede de esgoto. Na segurança, identifica aumento de homicídios de homens e jovens.

Na avaliação de Figueiredo, educação merece atenção especialmente pela relação entre o crescimento da demanda e a capacidade de oferecer vagas e serviços com qualidade.

Na saúde, a ausência de mudanças estatisticamente identificadas em grande parte dos indicadores também precisa ser interpretada com cuidado.

“Você não muda a demanda de forma drástica, ou não piora de forma drástica indicadores de saúde, mas o ideal seria que eles melhorassem”, explica.

Para o pesquisador, esses resultados levam a uma discussão sobre a capacidade de resposta às novas demandas dos territórios. Grandes projetos podem aumentar emprego, renda e população em municípios relativamente pequenos, pressionando simultaneamente infraestrutura e serviços.

A síntese apresentada no estudo é clara: “O boom cria oportunidade, mas não garante sozinho um legado duradouro.”

Da oportunidade ao legado

A conclusão do trabalho é que a mineração estratégica cria uma oportunidade econômica de grande escala, mas a permanência dos ganhos depende da capacidade de transformar a riqueza gerada durante o ciclo mineral em ativos que continuem úteis aos municípios no longo prazo.

O estudo aponta cinco frentes para essa construção: diversificação produtiva, capital humano, capacidade municipal, infraestrutura e serviços e prevenção da violência.

A lógica é que o crescimento provocado por um grande empreendimento mineral precisa ser acompanhado por planejamento capaz de responder à nova escala econômica e populacional do território.

É justamente essa discussão que esteve no centro do Goiás Mineral 2026, promovido pelo Sindicato das Indústrias de Mineração GO e DF (Minde): compreender o presente a partir de dados e evidências para construir políticas, estratégias e decisões capazes de transformar o potencial mineral em desenvolvimento de longo prazo.

Acesse o estudo completo

A apresentação “Mineração Estratégica e Desenvolvimento Municipal”, de Erik Figueiredo, apresentada durante o Goiás Mineral 2026, está disponível para consulta.

Mineração Estratégica e Desenvolvimento Municipal

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