A resposta para a pergunta do título está, em parte, no município de Minaçu, no Norte de Goiás. É ali que funciona a operação da Serra Verde, única produtora comercial de terras raras do Brasil, responsável pela produção de elementos utilizados na fabricação de componentes para veículos elétricos, turbinas eólicas e outros equipamentos industriais. A atividade conecta a mineração goiana a um dos grandes desafios debatidos na 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31): a transição para uma economia com menores emissões de gases de efeito estufa.
A conferência será de 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia, reunindo representantes de governos, empresas, pesquisadores e organizações da sociedade civil para discutir medidas de enfrentamento às mudanças climáticas. Entre os assuntos da agenda estão a expansão das energias limpas, a eletrificação, a transformação dos processos industriais e o financiamento das ações climáticas.
Embora a COP31 tenha uma pauta mais ampla, a transição energética ocupa um lugar importante nas discussões. E esse processo depende não apenas de decisões políticas e investimentos em novas tecnologias, mas também da disponibilidade de matérias-primas minerais.
Por que a transição energética precisa da mineração?
A substituição gradual de tecnologias baseadas em combustíveis fósseis por alternativas de menor emissão exige a fabricação de novos equipamentos, a ampliação da infraestrutura elétrica e o desenvolvimento de processos industriais.
Veículos elétricos, turbinas eólicas, redes de transmissão e sistemas de armazenamento de energia utilizam diferentes substâncias minerais. Cada tecnologia tem necessidades específicas, mas todas dependem de cadeias produtivas que começam com o conhecimento geológico, a pesquisa mineral e a extração de matérias-primas.
Entre essas substâncias estão as terras raras, um grupo de 17 elementos químicos com aplicações em diferentes setores industriais.
Quatro desses elementos — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — têm especial relevância na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Esses componentes são utilizados em determinados motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas e outros equipamentos que exigem eficiência e desempenho.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda mundial pelos quatro principais elementos de terras raras utilizados em ímãs permanentes praticamente dobrou desde 2015. O crescimento dessas aplicações amplia a importância de garantir o fornecimento dos materiais necessários à fabricação das tecnologias. Também evidencia a necessidade de diversificar as fontes de produção e desenvolver as diferentes etapas das cadeias industriais.
O papel de Minaçu na produção de terras raras
É nesse cenário que Goiás ganha relevância. A Serra Verde iniciou a produção comercial de terras raras em 2024, na mina Pela Ema, localizada em Minaçu. A operação se destaca pela produção de elementos utilizados em ímãs permanentes, incluindo disprósio e térbio, conhecidos como terras raras pesadas.
Segundo a empresa, a Serra Verde é a única produtora em larga escala fora da Ásia dos quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Essa característica coloca a produção goiana em uma posição diferenciada no mercado internacional, marcado pela concentração de etapas importantes da cadeia de terras raras em poucos países. A existência de uma operação comercial em Goiás contribui para a diversificação do fornecimento global de matérias-primas utilizadas em tecnologias de eletrificação e energia limpa.
Da riqueza mineral ao desenvolvimento industrial
A relação entre mineração e transição energética também envolve uma discussão sobre desenvolvimento econômico. A disponibilidade de recursos minerais é uma condição importante, mas não suficiente, para que um país amplie sua participação nas cadeias industriais associadas às novas tecnologias.
Para avançar, são necessários investimentos em pesquisa geológica, conhecimento tecnológico, infraestrutura, formação profissional e capacidade de processamento e transformação dos minerais. No caso das terras raras, essas etapas são especialmente relevantes porque a fabricação de materiais e componentes de maior valor agregado depende de processos industriais especializados.
Para Goiás, a presença da operação de Minaçu abre espaço para discutir como a atividade mineral pode se relacionar com novas oportunidades de investimento, serviços, qualificação de trabalhadores e fortalecimento das cadeias produtivas. Esse desenvolvimento, entretanto, exige planejamento de longo prazo e articulação entre empresas, instituições de pesquisa e poder público.
Transição energética e responsabilidade socioambiental
A contribuição dos minerais para tecnologias de menor emissão não elimina os desafios ambientais e sociais associados à sua produção.
A expansão da mineração precisa considerar o uso eficiente de recursos naturais, a gestão de resíduos, o aperfeiçoamento dos processos produtivos e a relação com as comunidades dos territórios mineradores. Da mesma forma, a redução das emissões ao longo das cadeias industriais depende de escolhas tecnológicas, fontes de energia e práticas de produção.
Assim, o debate sobre transição energética envolve duas questões complementares: garantir os materiais necessários às novas tecnologias e buscar formas cada vez mais eficientes e responsáveis de produzi-los.
Um debate global com conexão direta com Goiás
Ao reunir países para discutir os caminhos do enfrentamento às mudanças climáticas, a COP31 também oferece uma oportunidade para compreender a dimensão mineral da transição energética.
A ampliação de tecnologias de eletrificação e geração de energia limpa exige cadeias de fornecimento capazes de atender à demanda, reduzir vulnerabilidades e desenvolver novas capacidades industriais. A produção de terras raras em Minaçu mostra que Goiás participa dessa transformação global desde uma de suas primeiras etapas: o fornecimento de matérias-primas minerais.
O desafio para o estado e para o Brasil é aproveitar esse potencial para fortalecer o desenvolvimento tecnológico e industrial, ampliar a agregação de valor e gerar oportunidades duradouras para os territórios.


